Thursday, April 14, 2005

Marinada

Cheguei já muito tarde à repetição do último Choque de Gerações.Culpa minha. Mas ainda a tempo de ouvir o Luís Filipe Borges falar sobre a "marinada" que atingiu a RAA, isto é, a obsessão pela marina, que é (pela rima) uma prima avantajada da piscina, outra obsessão do chiquismo açoriano. O último ódio de estimação do Luís Filipe Borges repôs finalmente a verdade quanto à capa do romance de Mário de Carvalho, "Fantasia para dois coronéis e uma piscina",onde o rectângulo português aparece transformado em piscina, esquecendo-se, o pintor, das piscinas adjacentes.

Wednesday, April 13, 2005

Soneto de Identidade

Chamo-me Pedro, sou Silveira e sou
também Mendonça: um tanto duro, como
Pedro é pedra; picante agudo assomo
de silva do silvedos - não me dou!


Raiz flamenga, já se sabe; e um gomo,
no fruto, castelhano. E assim bem pou-
co, pois que doce me passara à ou-
tra pátria (ou língua?) que me coube e tomo.


Ainda Henriques (alemão? polaco?)
e outros cognomes mais: espelho opaco
de errâncias várias, que mal sei. (Desfaço,


talvez por isso, no que faço.) Ilhéu
da casca até ao cerne - e lá vou eu,
sem ambição maior que o livre Espaço.


Pedro da Silveira, "Poemas Ausentes" (1999)


(Natural da Fajã Grande, ilha das Flores, onde nasceu em 1922; faleceu em Lisboa a 13 de Abril de 2003. Poeta, investigador, homem politicamente incorrecto, açoriano "até ao cerne")

Thursday, April 07, 2005

Desabafo e sugestão

Para os tempos de abutrização "informativa" que correm:

1. Slogan anti-publicitário: "Tanto papa já empapa!"

2. Canonizar este Papa? Mas a Comunicação Social já o fez, enquanto o Vaticano esfregava um olho;tal como antes já o fizera com Miklos Fehér, com Amália Rodrigues, Sousa Franco, Irmã Lúcia, para só falar de casos mais recentes. A CS canoniza mais branco!

3. Sugestão de leitura para estes dias: o romance "Em directo do Calvário", de Gore Vidal.

Sunday, April 03, 2005

Em cima do acontecimento

Hoje, 3 de Abril, domingo, pode ler-se na edição on-line do jornal "A União" este título muito elucidativo:

Condições gerais da saúde do Papa agravaram-se

Friday, March 25, 2005

Rui Duarte Rodrigues (m. 26.03.2004)

Com segredos e silêncios


Fecho os olhos para sonhar cidades distantes,
paisagens de luz com um destino estranho


É um filme de silêncio. Piscam as luzes,
mexem as bocas. Pisam marcas dos antecessores.
Amam, gritam, sufocam.
Eu estou surdo. Surdo e mudo.


Estou do outro lado dos continentes.
Vivo na luz marítima


Chego-me a ti em sonhos
como um velho cargueiro, oscilando e rangendo
sem destino no meio do nevoeiro


Sonho que faço a ponte. Atravesso o oceano
com segredos e silêncios depositados pelos anos
no fundo dos porões


Trago olhos de faroleiro turvos das tempestades
alma de pescador temente do desastre
e um coração astronauta ciente de que a terra é pouca
e finita

(em Com Segredos e Silêncios)


Rui Duarte Rodrigues (Angra do Heroísmo, 1951-2004): Os Meninos Morrem dentro dos Homens (1970); Com Segredos e Silêncios (1994).

Monday, March 21, 2005

DIA MUNDIAL DA POESIA

Em Creta com o Minotauro

I
Nascido em Portugal, de pais portugueses,
e pai de brasileiros no Brasil,
serei talvez norte-americano quando lá estiver.
Coleccionarei nacionalidades como camisas se despem,
se usam e se deitam fora, com todo o respeito
necessário à roupa que se veste e que prestou serviço.
Eu sou eu mesmo a minha pátria. A pátria
de que escrevo é a língua em que por acaso de gerações
nasci. E a do que faço e de que vivo é esta
raiva que tenho de pouca humanidade neste mundo
quando não acredito em outro, e só outro quereria que
este mesmo fosse. Mas, se um dia me esquecer de tudo,
espero envelhecer
tomando café em Creta
com o Minotauro,
sob o olhar de deuses sem vergonha.

II

O Minotauro compreender-me-á.
Tem cornos, como os sábios e os inimigos da vida.
É metade boi e metade homem, como todos os homens.
Violava e devorava virgens, como todas as bestas.
Filho de Pasifae, foi irmão de um verso de Racine,
que Valéry, o cretino, achava um dos mais belos da "langue".
Irmão também de Ariadne, embrulharam-no num novelo de que se lixou.
Teseu, o herói, e, como todos os gregos heróicos, um filho da puta,
riu-lhe no focinho respeitável.
O Minotauro compreender-me-á, tomará café comigo, enquanto
o sol serenamente desce sobre o mar, e as sombras,
cheias de ninfas e de efebos desempregados,
se cerrarão dulcíssimas nas chávenas,
como o açúcar que mexeremos com o dedo sujo
de investigar as origens da vida.

III

É aí que eu quero reencontrar-me de ter deixado
a vida pelo mundo em pedaços repartida, como dizia
aquele pobre diabo que o Minotauro não leu, porque,
como toda a gente, não sabe português.
Também eu não sei grego, segundo as mais seguras informações.
Conversaremos em volapuque, já
que nenhum de nós o sabe. O Minotauro
não falava grego, não era grego, viveu antes da Grécia,
de toda esta merda douta que nos cobre há séculos,
cagada pelos nossos escravos, ou por nós quando somos
os escravos de outros. Ao café,
diremos um ao outro as nossas mágoas.

IV

Com pátrias nos compram e nos vendem, à falta
de pátrias que se vendam suficientemente caras para haver vergonha
de não pertencer a elas. Nem eu, nem o Minotauro,
teremos nenhuma pátria. Apenas o café,
aromático e bem forte, não da Arábia ou do Brasil,
da Fedecam, ou de Angola, ou parte alguma. Mas café
contudo e que eu, com filial ternura,
verei escorrer-lhe do queixo de boi
até aos joelhos de homem que não sabe
de quem herdou, se do pai, se da mãe,
os cornos retorcidos que lhe ornam a
nobre fronte anterior a Atenas, e, quem sabe,
à Palestina, e outros lugares turísticos,
imensamente patrióticos.

V

Em Creta, com o Minotauro,
sem versos e sem vida,
sem pátrias e sem espírito,
sem nada, nem ninguém,
que não o dedo sujo,
hei-de tomar em paz o meu café.


Jorge de Sena, In Crete with the Minotaur and other poems ( Gávea-Brown Publication. Edição bilingue, traduções de George Monteiro. Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros, Brown University, Providence,R.I., 1980)

Friday, March 18, 2005

A Europa e o seu charme

O Professor Freitas do Amaral, novo Ministro dos Negócios Estrangeiros,lá se estreou nas suas novas funções europeias. E aproveitou uma conversa (conferência de imprensa informal?)para ir limpando o ouvido enquanto falava com os jornalistas; teve mesmo de desviar o olhar por momentos para inteirar-se do que conseguira "pescar" com o dedo da mão esquerda.
Foi o supremo encanto da merenda, diria o Cesário Verde!
Para a História ficará a dúvida sobre se o gesto do Senhor Ministro é coisa (im)própria do socialismo socrático ou da democracia-cristã.